Ovo de colombo

26.7.18
Silenciosamente 
Sem um cacarejo
a Noite põe o ovo da lua

Mário Quintana



Quando a mente é assombrada diariamente por um carrossel alucinado de ideias, the sky is the limit. A questão está em saber transformá-las em ovos fecundados e não em popping eggs metafóricos.
Quando me perguntavam há uns largos anos atrás, porque tinha optado pela alimentação vegetariana costumava dizer que a minha escolha fora motivada por razões éticas (respeito pela vida animal), ecológicas (impacto das minhas escolhas na sustentabilidade do planeta) e de saúde, por esta ordem.
Com o passar dos anos passei a admitir que o meu amor à arte e criatividade em todas as vertentes da vida me conduziriam inevitavelmente por este caminho.





Em matéria de alimentação vegetariana nada é impossível. A tradição é sempre discutível. O conhecimento dos alimentos e a experimentação dos seus efeitos de uma forma holística é fundamental.

A expressão "não se fazem omeletas sem ovos" não faz o menor sentido neste contexto.

Vamos assim assumir que o ovo, entendido em termos latos como "aquilo que constitui o príncipio de algo" pode ser construído a partir de uma simples ideia...por exemplo, um simples grão de bico e umas pitadas de kala namak.

Exultem os amantes de ovos, alegrem-se as galinhas porque esta alternativa  é bombástica.

Leguminosas ao poder, libertem-se as capoeiras.


 Aqui vai a receita com imagens do making of de

OMELETAS DE GRÃO

1 chav (110g) farinha de grão
1 colher sopa levedura nutricional (opcional)
1 colher chá de kala namak ( sal preto)* ou normal
1/2 colh chá cominhos
1/2 colh chá tomilho seco
1/4 colh chá alho em pó
1/4 colh chá paprika fumada
1/4 colh chá turmérico
1/8 colh chá pimenta preta
1/2 chav (155ml) água + 2 colh de sopa separadas
1 colher chá de azeite
2 chav (140g) de cogumelos laminados
2 chav de couve (60g) ou curgete ou espinafres ( ou restos de outros legumes cozinhados)
1/2 chav (50g) de tomates secos picados
1/4 chav (25g) cebolinha picada (só parte branca)
Azeite qb para cozinhar


Juntar numa taça a farinha de grão, a levedura, o sal preto, cominhos, tomilho, alho em pó, paprika , turmérico e pimenta. Envolver tudo. Adicionar a 1/2 chávena de água e mexer . Adicionar a restante água pouco a pouco ( ou mais, se necessário) até obter a consistência de massa de panquecas. Reservar.
Saltear os cogumelos em azeite, juntar a curgete ( ou outro vegetal) e o tomate seco picados ( não uso) e confiar a mexer alguns minutos até a curgete amolecer ligeiramente. Juntar a mistura da farinha. Adicionar salsa picada ( a erva portuguesa 😊).






Aquecer uma frigideira com azeite em lume médio. Deitar pequenas quantidades ( se quiser um formato de pataniscas ) ou grandes ( se optar pelo formato de omeleta) e cozinhe durante cerca de 3 minutos de cada lado usando uma espátula para virar.
Podem ser feitas com antecedência e reaquecidas posteriormente. Conservam-se durante 1 a 2 dias no frigorífico.



Podemos optar pelo formato de pataniscas


Ou fazer maiores e enrolar como as omeletas

Loucos, tremoços e a viagem existencial do Kerouac

4.7.18

“Mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu  arrastava-me na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – se pode ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaaah!’.”
On the road – Jack Kerouac


Embora soe um pouco improvável a ligação do Jack Kerouac ao nosso tão português tremoço esta foi descoberta depois de ter encontrado um frasco de tremoços que guardo sempre para emergências culinárias na minha despensa , local para onde viajo com frequência e me permite deambular existencialmente na minha cozinha. Sim, é agora  que vem a parte do...louco/a :).

Para quem já leu este tão célebre livro que fala de uma viagem ao interior do ser humano consegue perceber porque muitas vezes nem sequer é preciso andarmos numa estrada para fazermos viagens de encontro a nós próprios.

Esta moda de esgrimir palavras misturadas com refogados de cebola ajuda-nos a deambular e a dar significado ao aparentemente mecânico acto quotidiano de cozinhar.




Hamburgueres de tremoço
  • 350 gramas de tremoços cozidos
  • 1 batata doce média  (usei as de polpa laranja- as minhas preferidas)
  • azeite
  • linhaça moída (3 colh de sopa)
  • farinha de aveia
  • 2 alhos franceses
  • 3 dentes de alho
  • levedura nutricional (ou levedura de cerveja)
  • sal e pimenta
  • salsa picada

Cozer a batata doce com casca em água a ferver. Depois de cozinhada  (espetar com um garfo para verificar a consistência) cortar ao meio e retirar a polpa com a ajuda de uma colher transferindo-a para uma taça. Cortar os alhos franceses longitudinalmente e laminar em meias luas. Levar a saltear em azeite com os dentes de alho picados. Reservar. Descascar os tremoços (previamente demolhados em várias águas para retirar o excesso de sal) e processar num robot de cozinha, acrescentando um pouco de azeite e água suficiente até obter um creme macio mas não líquido. Transferir este creme para uma tijela grande e adicionar o alho francês salteado com o alho, a polpa da batata doce a farinha de linhaça, a levedura nutricional e a salsa picada. De seguida acrescentar a farinha de aveia aos poucos até conseguir obter a consistência adequada para moldar hamburgueres.
Deixar o preparado descansar cerca de 30 minutos no frigorífico para adquirir uma consistência mais forme (nem sempre é necessário). Forme bolas de dimensões aproximadas e achate-as com as mãos. para dar a forma pretendida. Pincele o fundo de um tabuleiro de forno com azeite ( use papel vegetal para evitar que cole ao fundo) e coloque lá os hamburgueres e pincele também com um pouco de azeite. Leve ao forno pré-aquecido a 180º cerca de 20 a a 25 minutos.

Pão Doce com cheiro de Natal

2.1.18
Um frasco de sementes de papoila. Um poema do Cesário Verde. Os opiácios do Fernando Pessoa e um sopro dos ventos de Leste.






Não é a fome que me faz cozinhar mas a vontade de encontrar um sentido filosófico e um propósito estético nos alimentos.

Faz sentido cozinhar sem a provocação poética de uma cor, uma forma, uma memória?





Este é um pão típico da época natalícia em vários países da Europa de Leste. Não é a primeira vez que o faço em casa, mas desta vez, tentei adaptar a receita original que utiliza manteiga, leite de vaca  e ovos a uma versão vegan.

O contraste da massa fofa com o crocante das sementes torna-o simplesmente delicioso.




Receita


Massa
11/2 colher de chá de fermento
60ml de leite de soja (substitui o leite de vaca)
3 colher sopa de água morna
215 g de farinha de espelta semi-integral
75 ml azeite (substitui a manteiga) *
1 colher sopa de farinha de linhaça + 4 colh sopa de água (substitui a gema do ovo)
45g de açúcar (usei açúcar de côco)

Recheio
100 g de sementes de papoila
100 g de açúcar de agave
3 colher sopa de água

Colocar o fermento de padeiro, o leite de soja e a água aquecidos numa taça e deixar actuar durante 5 minutos.
Misturar a farinha, o azeite, a mistura de linhaça (gema vegan) e o açúcar de coco. Adicionar à mistura com o fermento já activo e trabalhar até obter uma massa macia. Transferir para uma superfície enfarinhada e tee amassar cerca de 2 minutos. Se necessário polvilhar com um pouco de farinha para não ficar peganhenta. Colocar dentro de uma tijelacoberta coberta com um pano dentro do forno a levedar cerca de 1h. Ao fim deste tempo terá aumentado de tamanho. Trabalhamos novamente mais 5 minutos numa superfície enfarinhada e deixamos descansar.
Fazer o recheio misturando os 3 ingredientes num robot de cozinha.
Esticar a massa com um rolo sobre papel vegetal em forma quadrada. Espalhar o recheio por cima. Enrolar sem apertar demasiado para que a massa possa expandir-se enquanto coze. Pressionar as extremidades para selar dobrando-as para baixo do strudel. Transferir para um tabuleiro forrado com papel vegetal e deixar descansar 45 minutos. Pré aquecer o forno a 180° e levar a cozer cerca de 25 a 30 minutos. Deve ficar elástico ao toque e dourado.

* se não gostarem do ligeiro travo a azeite podem substituir por outra manteiga vegetal

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